A Horta do Mundo

A Horta do Mundo

Toda a vida pensei em ser merceeiro e agricultor.

E ao fim de 48 anos, ainda com mais razão, e com muita pena de ter escolhido o caminho errado.
Numa das pouquíssimas coisas que aprendi na faculdade, David Ricardo explicava no modelo das vantagens comparativas, que numa economia de dois países, mesmo que o país A produza mais competitivamente os bens X e Y do que o país B, este sistema de dois países ganha no seu todo se o país A se especializar na produção do bem em que comparativamente (com o outro bem) é mais competitivo do que o outro. Assim A produzirá X e B o bem Y. E no meio de tanta desorientação, tanta falta de rumo e liderança que nos conduzisse a um melhor futuro, nunca entendi porque nunca o poder político percebeu isto.

Porque insistimos espalhafatosa e ridiculamente nos clusters científicos de todas as espécies menos no agrícola. Porque apostámos no software e células estaminais em vez do queijo da serra, framboesas e polpa de fruta.

Que mentes peregrinas julgavam podermos competir nas nossas universidades e laboratórios, com um mínimo de escala e impacto mundial, com unidades internacionais quando os nossos fecham às 5 da tarde, fazem greve, não têm fundos para compra de pipetas, advogados de patentes ou qualquer ecossistema científico.

Por outro lado há coisas que sabemos e sabemos fazer. Sabemos fazer sardinhas de conserva, competitivamente, e fazê-las apreciadas nos melhores restaurantes e revistas do mundo. Sabemos fazer vinhos, pão, queijo, azeitonas e azeite, polpa de tomate, frutos vermelhos, legumes de sonho. E aqui sim temos vantagens competitivas. Não pelos custos de produção, mas pela capacidade de diferenciação que significa um premium no valor a pagar pelo consumidor. Temos solos fabulosos, rios não poluídos, uma inclinação e duração solar únicas, métodos de produção artesanal incopiáveis.

Somos os artesãos, melhor, os joalheiros da boa comida, dos frutos da terra e do mar!

E enquanto engenheiros informáticos são produzidos ao pontapé em todo o mundo ao preço da uva mijona o Sr. Joaquim do Queijo da Minha Serra é incopiável.

“Transformemos Portugal na Horta do Mundo. E assim teremos um Futuro.”

Mas não é só pelas vantagens comparativas que devemos apostar na horta do mundo. É também porque as pessoas das sociedades ocidentais, fartas da urbe, procuram o regresso à terra, ao campo e animais, aos produtos orgânicos, à artesanalidade alimentar. É porque hoje são tecnicamente conhecidos os benefícios da dieta mediterrânica, sobre quase todas as outras. É porque o envelhecimento da população traz-nos um potencial de turismo ecológico/agrário/enólogo completamente por explorar. É porque os preços dos bens alimentares não param de aumentar nos mercados mundiais, bem mais que os inputs da tecnologia. É porque a loucura da restauração de luxo faz com que vá o peixe do Per Se, um dos melhores restaurantes do mundo em Nova Iorque, de avião, todos os dias das nossas lotas portuguesas para o outro lado do Atlântico.

Isto parece-me tão óbvio. Mas eu sempre tive uma maneira agrícola de pensar. Fazer muito bem as coisas simples e boas da vida. Acrescentar-lhes um valor de marca e design. Conseguir mercados internacionais. Mas vivemos rodeados de decisores que querem queimar etapas para uma impossível transformação do nosso país numa potência tecnológica. Que querem produtos da moda, como Magalhães, para aparecerem nas revistas e meios internacionais. Que querem vender um país fantasioso, que não é o nosso. Perdendo tempo.

Deixo isto claro. Mesmo no mundo conectado de hoje, nunca sairá de nenhum laboratório português nenhuma inovação mundial tão relevante e impactante como teve o Vinho do Porto na “venda” de Portugal.Já sem falar do impacto científico, escalável na produção e spillovers nacionais. Transformemos Portugal na horta do mundo. E assim teremos um futuro.

 

Manuel Forjaz

 

Publicado em março 2012 na revista técnico-científica agrícola Agrotec (número 2).